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César Romero - A Escritura do Brasil
Jacob Klintowitz

A pintura de César Romero é estruturada a partir de um padrão geométrico e a sua expansão obedece à essa forma inicial, multiplicando-a, transformando a geometria estrutural num módulo para o desenvolvimento. Investigação das propriedades das linhas, superfícies e volumes. Geometria. Geômetra.
O desenho do padrão geométrico estabelece o ritmo da pintura, a sua modulação e o seu sistema de multiplicação. A simetria, a repetição, a multiplicação a partir da estrutura sensivelmente desenhada.
Neste sentido, o do padrão modular que se repete e é multiplicado até o infinito, o ritmo torna-se incessante e permanente. O processo de criação de César Romero é semelhante ao da criação popular que, no seu sistema de produção, repete as formas e as multiplica. Incessante e permanente. Mais do que aqueles que, de maneira direta e intencional, pretendem identificar o seu trabalho com as fontes populares de cultura, César Romero estabelece o diálogo com a essência dessa produção, o modo de operar e sentir o fazer. Pode ser dito que o pintor dialoga com o processo de criação da cultura popular e não com a sua aparência.

O popular e o erudito não forças antagônicas e contraditórias para César Romero. Não estão em oposição e nem uma anula a outra. A sua relação com a matriz popular é de interesse, respeito, valorização mas não de subserviência. Ele pesquisa, recolhe e se alimenta dessa criação permanente, mas a transforma em invenção sua numa elaboração de grande força e características próprias. Individualidade.
Observem-se as obras criadas por este artista e o tratamento dado a partir das festas populares da Bahia. Na sua iconografia pessoal ainda é possível reconhecer os signos dos Orixás ou a geometria espontânea dos tamboretes das festas de largo. Mas está ausente a personalidade do Orixá enquanto entidade religiosa ou a desordem dionisíaca das festas. Em César Romero, a arte é rigor e meditação, elaboração e visualidade. E principalmente, estão ausentes a adoração da divindade e a permissividade da desordem dionisíaca.
Há, aqui, aproximação (lentes e assinaladas em 34 anos de atividade), estudos do tema, pesquisa dos movimentos e das relações geométricas e, certamente, o uso dos mesmos símbolos. Mas ele não se repete e nem se transforma em signo independente. Em César Romero, ele é elemento plástico carregado de simbolismo e de história, signos e símbolos ancestrais, arquétipos, criação coletiva do continente africano transportada e unida, no Brasil, num único panteón. Mas é, antes de tudo, signo plástico. Aqui estamos falando de pintura. E o artista apresenta-se como um pintor e se submete às regras da sintaxe que elegeu e ao olhar crítico externo, sem reivindicar uma especial posição pessoal de guru, profeta, ou sacerdote da negritude afro-brasileira, como tantos já o fizeram.
Penso que o artista superou a dualidade e a oposição, tão brasileira, entre o popular e o erudito. Na verdade, ao observarmos esse trabalho nos parece que o artista nunca teve dúvida disto. Ele é um pintor que se aprofunda na herança popular de seu país como de um manancial de vitalidade. Bebe na fonte primeva. Mas é um pintor, e não se quer mais ou menos do que isto. Tudo é popular e tudo é erudito. A totalidade é o Brasil. A anima nacional. A escritura do Brasil.

Viver a dimensão divina sem ser adorador. Tratar do sagrado sem ser adorador. Tratar do sagrado sem ser um devoto, mas um transformador, inventor de linguagem, um artista. É a proposta e o comportamento do pintor César Romero.
Muitos artistas tornaram-se devotos ou partidários, ideólogos, e não há nada de mal nisto. Mas se, para o artista, há uma causa externa superior à causa da arte, ele perde a sua “vantagem”, que é a confiança na sua intuição e a sua independência para seguir o que o seu instinto visual aponta. O que não é possível fazer quando se deve proteger uma ordem de coisas externa, uma razão mais poderosa e um bem supostamente superior à sua atividade de eleição. Goldoni tinha razão e não se pode ter dois patrões ao mesmo tempo.
Entretanto, mesmo não sendo um adorador ou engajado em determinado ritual religioso ou igreja institucional, ou, provavelmente, por isto mesmo, o trabalho de César Romero é impregnado de misticismo e dotado de profundo sentimento de religiosidade. A sua pintura desperta evocações do universo metafísico e coloca o que parece ser a principal questão religiosa da nossa época, a discussão sobre o centro. É nessa questão que se situam os vários tipos de concepções de Deus, o homem como ser divino ou profano, a adoção ou não das igrejas institucionalizadas Na infinitude de suas Faixas Emblemáticas, em nenhum momento, é possível localizar o centro. O centro está em todo lugar! Tudo é centro. Todos os homens são Buda, como disse Buda.

César Romero tem uma solidada formação c e cientifica de médico psiquiatra, atividade que sempre exerceu. E possui experiência de administrador de empresa e empresário. Esta vivência alicerçada na ciência, na tecnologia e na disciplina pessoal, influenciou fortemente a sua atividade intelectual e artística. Hoje ele é o colunista de arte com a mais antiga seção especializada do país. E os que militaram na imprensa sabem da férrea vontade e disciplina que são necessárias para manter essa regularidade.
O pintor César Romero é extremamente organizado, estudioso e exigente consigo mesmo. Em tantos anos em que acompanho o seu trabalho, não fiz senão acumular novas informações sobre as suas pesquisas, registros, temas e assuntos, e a lógica implacável de sua evolução, sempre fundada na necessidade que a sua sensibilidade aponta. Auto exigência e fidelidade a si mesmo. A sensibilidade presidiu essa evolução, o seu percurso em direção ao saber e ao amadurecimento.
Mesmo que haja alguma flexibilidade na demarcação das fronteiras, para efeito de classificação e registro, podemos datar o percurso do artista da maneira que se segue. É bom notar, também, que a informação circula por entre as suas várias pesquisas e fases, como, por exemplo, entre os trabalhos fotográficos e as pinturas dos Tamboretes das Festas de Largo da Bahia1967-69, Casarios; 1970-77, Imagens; 1978-85, Selos Comemorativos; 1978-1986, Paisagens com Faixas Emblemáticas; 1980-1986, pintura, Tamboretes de Festas de Largo da Bahia; 1991-1996, Platibandas Emblemáticas; 1991-2000, Enigmas; 1980-1990, fotografia, Tamboretes de Festas de Largo da Bahia; 1985-2000, Faixas Emblemáticas.
Talvez, se fossemos aproximar César Romero de personalidades artísticas da mesma família espiritual, pintores com afinidades eletivas, como balisamento, poderíamos estabelecer dois parâmetros, um internacional e outro nacional mas ambos universais.
O primeiro deles é Paul Klee, gênio da arte, anunciador dos novos tempos de cultura holística. Em comum com César Romero tem a extraordinária fluência com que desenha e pinta signos mágicos e, ao mesmo tempo, conserva o caráter pictórico e plástico de seu trabalho. A resistência à tentação literária numa época em que as artes plásticas, em boa parte, tornaram-se ilustração de conceitos, mesmo os mal formulados. E a essa dinâmica interior na pintura dos dois artistas, os planos internos interrelacionados, a estrutura em movimento e a sensação de onipresença, um transformar permanente da imagem.
O outro artista é Alfredo Volpi, brasileiro, mestre extraordinário da sensibilidade cromática e da simplificação formal. Com Volpi temos a aproximação cromática, a dinâmica interna da cor a pulsação da pincelada. É curioso esse encontro, pois são métodos pictóricos diferentes. Em Volpi, a pincelada tem um caráter mais do que orgânico, pois ela acompanha a respiração do artista e termina quando termina a sua respiração e o pigmento do pincel. O alcance do gesto determina o tamanho do pincel sobre a tela, como um ponto, um sinal, uma pressão individual. Mas também em César Romero há essa pulsação, a vida interior da cor e da matéria. Pulsação e vida interna que alerta os nossos sentidos e estimula a nossa retina. Aqui há alguma coisa para ser percebida.
Em César Romero o resultado final é a sensibilidade cromática, a transparência e o tratamento do pigmento como se fosse pintura diluída em água, como a aquarela. O desenho precioso, rigoroso e, ao mesmo tempo, suave e natural, como se tivesse nascido naquele momento. E a monumentalidade, a sensação clara de que estamos diante de um mural ou que, mesmo em formato pequeno, temos uma obra que poderia ser projetada em grande formato. São as proporções internas. O projeto de um mural sem limites, capaz de um desenvolvimento autônomo e indefinido.
Devido ao discurso extremamente peculiar, individual, único, a invenção da própria sintaxe. César Romero, como os artistas citados, é um inventor.

César Romero pertence à Geração 70 da Bahia, um grupo de artistas de intensa atividade que renovou a linguagem artística baiana e ofereceu, com extremo vigor, um novo sistema de significação dos símbolos afro-brasileiros, da cultura popular e uma representação agressiva da vida cotidiana.
Essa geração emergiu num momento de tensão social, o sistema democrático brasileiro interrompido e forte repressão sobre os meios de comunicação e a expressão artística. Os mais importantes artistas dessa geração, César Romero, Juracy Dórea, Márcia Magno, Sonia Rangel, Sérgio Rabinowitz, Almandrade, Vauluizo Bezerra, Zivé Giudice, Emma Valle, Maria Adair, Bel Borba, Murilo, Maso, Leonardo Celuque, Justino Marinho, Leonel Mattos, Guache Marques, Florival Oliveira, Bartira, Fred Schaeppi, Washington Sales, J. Cunha, voltados para a criação individual, talvez não tenham se organizado como um grupo com objetivos comuns, mas a contemplação, tantos anos depois, mostra que eles reagiram ao status quo através de um denso mergulho na realidade cotidiana.
Em depoimento, César Romero nos diz: “As dificuldades foram imensas: buscar um mercado inexistente, credibilidade do público, mudança num gosto provinciano, a fuga da estética da norma, falta de patrocinadores, principalmente dos órgãos ligados a cultura que acreditavam só em artista famoso por dar mais “axé”. Os estímulos vinham de críticos como Matilde Matos, Ivo Vellame, Wilson Rocha, Reynivaldo Brito, Justino Marinho, César Romero e de certas instituições, como O Instituto Cultural Brasil Alemanha, A.C.B.E.U., Galeria Cavalete e o Museu de Arte Moderna da Bahia... O mais importante, a Geração dos Anos 70 vingou...”

O denso mergulho na realidade, a busca das referências culturais, o levantamento minucioso dos signos e símbolos que permeavam a vida e o cotidiano da Bahia, resultaram numa mostra notável, em 1983, “Os Sinais do Povo”. Esta exposição de pintura transformou-se numa grande instalação, pois o artista recriou fisicamente o ambiente das Festas de Largo da Bahia. Montou barracas, usou os tamboretes com assento, editou uma seleção de músicas típicas. Durante a exposição pessoas dançavam, bebiam e comiam exatamente como se passaria nas festas populares. Autênticas colchas de retalhos atapetavam a galeria, camisetas com obras impressas, bandeiras na rua, out door pela cidade, fogos de artifício. Em levantamento da Época Galeria esta foi a sua mostra mais visitada até hoje.
Esses mergulhos na cultura popular se completaram com o “Projeto Nordeste de Artes Plásticas”, em 1988, criado por Juarez Paraíso, quando 12 artistas baianos percorrem os estados da Bahia, Sergipe Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão e Ceará, criando murais coletivos, expondo em praça pública e galerias, dialogando com o público, críticos e artistas locais. César Romero, Eckenberger, Sônia Rangel, Márcia Magno, Chico Liberato, Antônio Brasileiro, Bel Borba, Juraci Dórea, Murilo Washington Falcão e Juarez Paraíso. A causa certamente era a da integração cultural da região e a criação de um circuito próprio, capaz de estimular e absorver mercadologicamente a arte. O que resultou deste entusiasmo foi a certeza na vitalidade das manifestações regionais.
A Bela definição da função da arte do pintor Paul Klee tem sido repetida ao infinito: a arte torna visível. Entretanto, aqui no caso do pintor brasileiro, temos a situação inversa pois César Romero trabalha com símbolos extremamente conhecidos, vitais, sabidos, da cultura afro-brasileira, signos gráficos dos Orixás do Candomblé. Mas, na obra do artista, eles como que se desprendem de sua significação, perdem o viço da comunicação ancestral, se obscurecem em relação à sua origem, e passam a viver como material plástico, despido de sua aura religiosa. César Romero torna o visível, invisível.
Neste caso, visível são formas obsedantes, constantes, populares, múltiplas. Manifesto, aparente, perceptível. E, invisível, são as formas eternas, subjacentes, perenes, simbólicas.
Ao tornar visível invisível, ao despi-lo da carga emocional e histórica para torná-la manifesta visualidade artística, César Romero acrescenta alguma coisa ao verso de Murilo Mendes, o invisível não é o irreal, é o real que não é visto.

FONTE: Livro César Romero – A Escritura do Brasil - Ultima Atualização: 28/12/2010

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