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O mágico ciclo da vida
Cezar Britto

06/03/2006, 07:47





Gerar e ser gerado por alguém são maravilhas que aproximam o Homem de Deus. Nada pode ser realmente mais extraordinário do que fazer nascer a vida, ainda mais quando o mágico também se torna objeto da própria magia. Ser pai e simultaneamente filho faz do Homem a imagem perfeita do Criador. Ambos os feiticeiros da vida, os transformadores do nada e os construtores do tudo.



Dando um toque especial em ambos feitiços, Deus dotou a sua cria com o poder do “livre-arbítrio” e o Homem incorporou no seu rebento o “livre-pensar”. Os dois tendo na liberdade de ação o principal ingrediente a moldar e traçar cada um dos destinos postos em vida. Finito, se tolhido pelo acomodado medo de voar em um mundo plural e repleto de mistérios. Infinito, se a mágica ousadia da criação original se lançar em busca da construção de novos paradigmas.



Não sem razão que é lugar comum se afirmar que o mundo tem o colorido da ousadia de Deus, livremente retocado pela mão rebelde do Homem. Artisticamente, quando se faz acrescer a tonalidade da natureza como elemento imprescindível ao cenário e a nitidez da compaixão como seu grande final. Destrutivamente, quando se procura borrar a cena com a cobiça provocada pelo sentimento de posse, fazendo com que o espetáculo seja apenas curtido por aqueles que se julgam proprietários exclusivos das coisas da vida.



Porém, embora convergentes no criar e no desejar, o mesmo não ocorre na forma de aplicar cada um dos elementos mágicos. Deus, talvez por simplesmente ser Deus, nunca teve qualquer medo do “livre-arbítrio”, pouco interferindo na ação de sua criatura, mesmo quando ela nega a própria autoria da criação. Já o Homem, talvez por não ser onipresente, onisciente e onipotente, sempre teve grande receio do “livre-pensar”, razão porque não resistiu em interferir no destino da sua criatura.



Realmente o Homem não seguiu Deus quando procurou fazer do discurso de liberdade um ato de libertação, o que fez do “livre-pensar” um velho prisioneiro da própria contradição humana. É que o Homem precisa do “livre-pensar” para fazer evoluir o mundo, ao mesmo tempo em sabe que o mundo evoluído pode ser o causador do enfraquecimento de suas crenças e compreensões mais rígidas. Certamente por isso expressões como “censura”, “controle”, “choque de gerações”, “conflitos familiares”, “obediência” e “imposição” constem expressamente do dicionário do Homem, embora aparentemente desconhecidas do de Deus.



Estas contradições e conflitos permanecem mesmo quando o Homem ama e se orgulha de sua cria, desejando, sinceramente, que ela evolua rumo ao infinito. É que a contraditória limitação, neste caso, estaria na idéia preconcebida de que o “meu livre-pensar”, por ser mais experiente, é mais importante do que o “livre-pensar” da sempre inocente criatura. E em sendo sincero e experiente o “seu-livre-pensar” acha que pode determinar o que é melhor para sua cria, escolhendo o que deve fazer, qual profissão exercer, os amigos a paparicar e o local onde morar.



O “meu livre-pensar”, por exemplo, ficou assumidamente abalado quando a minha cria Manuela resolveu que o seu destino profissional estaria no curso em que livremente escolheu, completamente diferente do meu. Ficou mais tumultuado ainda quando decidiu, na busca do seu querer, estudar e morar na hiper-distante Salvador. E quase foi a nocaute esta semana quando, depois de aprovada no vestibular da UFBa, concluiu a árdua tarefa de arrumar as suas malas diante do meu inquieto olhar.



E foi exatamente neste momento que compreendi a grande lição dos mágicos da vida, ousada e alegremente ensinada por minha querida filha. O “livre-arbítrio” criado por Deus e o “livre-pensar” copiado pelo Homem são os motores criativos da mesma máquina que move o mundo. Os dois são as faces da mesma moeda que circula no avançar do tempo. Cada um, a seu modo, representando o resultado final de uma obra conhecida como Humanidade.



Tolher o “livre-arbítrio”, portanto, é não entender a obra-prima de Deus. Da mesma forma, cassar o “livre-pensar” é tornar natimorto o sentido da criação do Homem. Afinal, sem eles nada se moveria, as crias jamais seriam criadas, coisa nenhuma avançaria, tudo seria mesmice, o mundo não passaria de uma caverna escura e sem vida. E em assim sendo, como realmente é, fico feliz em saber que a minha cria está apta, leve e solta para “livre-pensar”, cumprindo o mágico ciclo da vida.

FONTE: Cinform/Infonet - Ultima Atualização: 28/12/2010

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