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NÃO CONFUNDAMOS “ISMOS” COM “ANTIS”
Saulo Coelho

Não confundamos “Ismos” com “Antis”,
aprendamos com Sergipanos e Cearenses

Saulo Coelho*

É impressionante como a intolerância e a burrice (esta última a mais universal e democrática característica entre os seres humanos) se proliferam geometricamente na proporção com que as tribos e diversidade social se consolidam. Os sociólogos vêm estudando a intolerância e os crimes de ódio com disciplina e afinco desde que se instituiu a academia, mas em dias presentes eles parecem ter tomado dimensões assustadoras. “O problema é que burrice não dói”, diz um grande amigo meu.
Mas vamos aqui tentar analisar e identificar causas menos óbvias e mais estruturais da intolerância humana. Roland Bartès reza que todos os animais (nós, asininos, inclusos) têm limites de tolerabilidade espacial entre seus semelhantes. Ele cita que algumas espécies de pingüins chegam a morrer se conviverem muito próximos de seus pares. Algo parecido ocorre com os humanos. A grande diferença entre nós e os pingüins é que, com a extrema proximidade espacial, procuramos meios de eliminar os outros ao invés de morrermos.
Nos deteriorados tecidos urbanos dos grandes centros, a diversidade cultural que deles surge, seja dos guetos superlotados de arias desnorteados, seja das altas castas cuja identidade é ditada por pseudo-perfis e necessidades de consumo, traz juntamente com sua riqueza um poço de intolerância de profundidade proporcional à sua multiplicidade. Belo seria se, à medida em que crescemos, aprendêssemos a conviver organicamente com seres de outras crenças e referenciais acadêmicos, políticos, religiosos e estéticos.
Mas somos estúpidos a ponto de confundirmos a defesa de uma tese, crença, time, ideologia ou orientação sexual como se ela fosse contrária a todas as demais. Incorrer nisto é confundir os “ismos” com os “antis”. É acreditar que o homossexualismo é o anti-heterossexualismo, que o socialismo é o anti-capitalismo, que o tabagismo é o anti-absenteísmo. Os meninos são progressivamente condicionados pelos pais flamenguistas a odiar o Vasco, pelos pais israelenses a odiar os palestinos. As meninas são treinadas pelas mães liberais para evitar as conservadoras, pelas colegas virgens para evitar as “safadinhas”, pelos namorados ciumentos para evitar seus amigos.
Os brasileiros são condicionados a odiar os argentinos, os paulistas aos cariocas, numa prática de nazismo enrustido o qual costumamos chamar de bairrismo. Sentimento que não tem aflorado na relação de companheirismo e hospitalidade que se estabeleceu entre sergipanos e cearenses ao longo de prazerosos anos.
Vim do Ceará na barriga da minha mãe e minha família aqui se estabeleceu, criou raízes e hoje é sergipana de coração e de alma. Sempre nos sentimos acolhidos e amados por este povo receptivo e respeitador, que tem a capacidade sobre-humana, aparentemente extinta em outras terras, de perceber que o “cearencismo” praticado na CACESE não significa um “anti-sergipanismo”, mas sim um exercício livre de identidade cultural de um povo que não mais habita sua terra natal, mas se sente em casa na terra onde pisa. Gostaria, em nome da minha híbrida origem, que todos pudessem aprender com este exemplo de convivência harmoniosa e feliz que é a dos cearenses e sergipanos.
As pessoas pelo mundo afora não se dão conta de que, ao defenderem seus pontos de vista, não precisam necessariamente atacar o do próximo. Odiar os diferentes atrai vibrações negativas para si próprio. Quando se odeia a ideologia do outro, perde-se um tempo precioso, que poderia ser melhor aproveitado lapidando e melhorando a sua própria ideologia. Como resultado de toda essa teia de não aceitação, temos “ismos” cada vez mais fracos, menos autênticos e consistentes e “antis” muito mais inflados, fomentando uma convivência humana mais infeliz e violenta.

* Jornalista, professor e sergipano filho de cearenses

Ultima Atualização: 28/12/2010

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