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QUEM ERA PIPITA?
Maria Ivanilde Meneses Oliveira

Durante o feriado da sexta-feira, dia em que relembramos a “Paixão de Cristo”, aproveitei para colocar algumas correspondências pessoais em dia e, eis que leio um e-mail daquele tipo “corrente”, enviado por uma amiga contendo em seu anexo uma foto de “PIPITA”: o temido bandido que atormentava SERGIPE. Ao olhar para foto de PIPITA, fiquei impressionada porque ele aparentava ser um apenas um adolescente. Fisicamente, PIPITA parecia ser um dos jovens do “Projeto Social” em que trabalho.
Projeto Social sim, já que, mesmo sendo uma exigência legal, a empresa que é obrigada a realizar essa ação deu um contorno todo especial, criando um Programa, incluindo no mesmo a participação de uma Organização Social, atribuindo a ela a tarefa de acolher os jovens, SEMEAR nele a esperança de um mundo melhor, convencendo-o de que isso só será possível, se brotar em cada um, o exercício contínuo da cidadania, mesmo que seja apenas por um determinado tempo, através de um Programa com Jovens Aprendizes.
Projeto Social onde todos são respeitados e que, a um simples olhar agressivo ou palavras que às vezes doem nos colegas como se fossem tapas, nós respondemos com um afago através de palavras, provocando neles uma profunda reflexão sobre por quanto tempo irão continuar se detonando, pensando estar detonando o outro.
Projeto Social enquanto proposta de Trabalho, tendo este o sentido de transformação, tanto da natureza, como de si mesmo, como muito bem colocou Karl Marx em seus escritos, e não apenas como mercadoria. Ou mesmo como Lukács, quando afirmou “ser por meio do trabalho que o homem busca a produção e reprodução da sua vida, tanto no sentido material quanto social”.
Projeto Social enquanto proposta de diálogo entre o jovem e sua família. Quando tomarmos conhecimento de conflitos, procuramos media-los, ora em favor da família - lembrando ao jovem que o dinheiro conquistado para adquirir objetos sonhados acaba por ser um bem material, mas que a família é um bem, ou melhor, uma riqueza sem valor estimável - ora em favor do jovem, quando pedimos à família um voto de confiança para eles.
Projeto Social quando, incansavelmente, mediamos conflitos entre eles mesmos, entre eles e outros colegas de trabalho que querendo ajudar, às vezes deixam de fazer o que foi estabelecido por meio de normas de trabalho.
Projeto Social quando enquanto cobramos dos jovens o crescimento do broto semeado nos seis primeiros meses de convivência, através da ética nas relações, do respeito ao outro, do sentimento de coletividade. Brotos esses que nos cobramos enquanto pensar e agir de educadores sociais atuantes, cada vez que nos encontramos para planejar atividades rotineiras ou intervenções em algumas situações de conflito.
Projeto Social, enquanto Projeto de Vida, quando ao percebermos a proximidade do término de seus contratos de trabalho, tentamos desesperadamente, colher os frutos de nosso SEMEAR para ficarmos tranqüilos de que eles continuarão sua “caminhada”, por lugares não tortuosos e que buscarão sempre cultivar as sementes plantadas durante esses quase dois anos de convívio.
Projeto Social enquanto tentativa de resgate ao percebermos que o jovem não está respondendo aos nossos “chamados” e colocamos à sua disposição psicólogos e tentamos convencê-los a aceitarem ajuda.
Se PIPITA, fosse um de nossos jovens aprendizes, teria dado esse mesmo destino à sua vida?
O dia se passou e, ao cair da noite, lá estava PIPITA, chamando a atenção dos sergipanos no noticiário local e provocando risos entre aqueles que atribuíam a policia incompetência por não conseguirem capturar um “bandido” que sequer utilizava carro para fuga, some no meio do mato como os personagens folclóricos Saci Pererê e Curupira. Cogitaram a possibilidade de PIPITA já estar prestes a atravessar a fronteira entre Sergipe e Bahia, indo desembocar na cidade de Paulo Afonso.
No sábado de “Aleluia”, saí para resolver algumas pendências de ordem pessoal. Mal comecei a andar pelas ruas, já ouvi os comentários sobre a suposta morte de PIPITA: “Pegaram PIPITA”!” Os policiais deram um monte de tiro na cara dele!”; “Ele tentou invadir a casa de um senhor e esse, decepou-lhe a mão!”
Pensei angustiada: Que fim de vida trágico o de PIPITA. O que faz um ser humano ainda com jeito de menino (nem barbas ainda tinha, conforme vi na foto enviada pela minha amiga), cometer tanta atrocidade!
Rousseau, filósofo iluminista que contribuiu de forma valiosa também para a ciência política, quando idealizou seu o “Emilio”. Naquela época já afirmara que a criança nasce boa, a sociedade é quem a corrompe. Será que ninguém percebeu que um menino educado em um município do interior do estado de Sergipe estava com um comportamento um pouco estranho? Quando será que PIPITA começou a cometer delitos? Refletindo sobre a afirmação de Rousseau, volto a questionar: O que fizeram ou deixaram de fazer por PIPITA?
Voltei para casa em busca do meu aconchego e conforto espiritual quase na hora do noticiário local e olha lá, PIPITA já morto, ainda chamando a atenção da população sergipana. Acompanhei atentamente o noticiário e percebi, entre outros sentimentos da população sergipana, o de alívio e de vingança, ainda que não com as próprias mãos, mas da policia e, também, o de Felicidade ao serem informados sobre a morte de PIPITA. Sentimentos esses demonstrados com sorrisos e falas do tipo: “Finalmente mataram PIPITA e tudo voltará a ser como antes!”. ”A paz voltará a reinar no sul de Sergipe!”
Mas será que a Paz voltará reinar mesmo em Sergipe, apenas com a morte de PIPITA? Quantos “PIPITAS” deverão ser eliminados para se resolver o problema da violência em Sergipe e no BRASIL?
Volto à atenção para o noticiário ainda perplexa com as manifestações e, eis que vejo a porta do Instituto Médico Legal - IML cheia de pessoas querendo conferir se era realmente verdade que a policia sergipana conseguira eliminar PIPITA.
Assisti ao depoimento de um policial civil relatando a quantidade de homens disponibilizada para a captura de PIPITA. Os repórteres voltaram a filmar o local onde se encontrava o corpo de PIPITA; reprisaram a imagem do seu corpo no local de sua morte, sendo o rosto preservado (Um cuidado especial para garantir o cumprimento do O Estatuto dos Direitos da Criança e do Adolescente – ECA.), já que não fora permitido o acesso às instalações do IML onde se encontrava o seu cadáver.
Finalmente observo ainda, um senhor filmando o que ele denominava como “acontecimento histórico” e ouço o comentário do repórter sobre o sentimento de indiferença manifestado pela família de PIPITA, que não se mostrou surpresa com o seu trágico fim. O repórter relata que o pai de PIPITA encontra-se cumprindo pena por homicídio. Ocorreu-me a lembrança de um suposto comentário feito pelo pai de PIPITA de que se a policia o permitisse, ele mesmo iria à captura de seu filho e o entregaria a policia.
O jornal finaliza a com “queima” do corpo de PIPITA pela população que assumiu, inclusive, o personagem de Judas e, por um instante, sonho com a imagem de PIPITA ainda vivo, feliz por ser um de nossos Jovens Aprendizes...

Maria Ivanilde Meneses Oliveira
Pedagoga e coordenadora de Projeto da Sociedade Semear

Ultima Atualização: 28/12/2010

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